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Mil Histórias Pra Você

18 . Novembro . 2009 · 2 Comentários

Quantas letras existem? Quantas palavras? E bocas, sons e ouvidos? Não interessa, não faz a menor diferença quando o mais importante muitas vezes nem é dito. Dói demais saber que não sei, dói também ter medo de falar. Não quero me calar, recuso o silêncio. Talvez converse mais pra dentro e crie mais personagens em mim para evit.

Devo me explicar, sempre. Sinto que as palavras saem de mim e tomam corpo, enquanto o desejo passa pelas cordas vocais e. Fim de frase que não posso finalizar; luto muito, quero assim, mas me divirto tanto nesse meio, em meio a tantas idéias e diálogos tão lindos e sem sentido e é tanta beleza que eu sento à mesa na inocente tentativa de anotar cada átomo em desenhos em bastão.

Impossível. Uso todos os recursos que tenho à mão, mas como transpor a vida – aqui não cabe ponto de interrogação, penso até numa reticência, mas termino por escolher o ponto final. Não me entendem ou não querem entender. Penso mesmo que não há compatibilidade. Por que não acho pessoa que sabe exatamente o que penso? Onde estão aqueles que entenderão o que digo sem me dizer louca? Minhas idéias não são tão absurdas assim, meu cérebro não pode trabalhar de modo tão diferente do teu. Viajo por neurônios e cromossomos e certos domos de igrejas e vez por outra encontro gajo que não fala português e parece viver dentro de mim.

Devo me explicar, sempre. São inúmeros mal-entendidos, infindáveis situações peça-de-quebra-cabeça-que-não-encaixa. Peço ajuda? Não acredito. No fundo pouco me importa se alguém consegue algum dia chegar à raiz de tal árvore. Caso chegue, que corte um teco, tire pedaço. Que leve pra casa um daqueles negócios que as pessoas costumam chamar de lembrança, quando vão a algum lugar bonito e diferente. Pega, leva é seu. Seja minha abelha. Amarela e preta, quase vermelha, quase laranja.

Estou tão cansada e nada mais faz sentido. Meu olhar paira no meio, esse meio insuportável, meio dos exaustos. Tento entender o mundo, as palavras, meu amigo gajo que nem é mais vivo, as palavras, minha amiga de longe, as palavras, cada vez mais longe, as palavras, cada vez mais água entre nós, as palavras.

Devo me explicar, sempre. Não tente achar sentido em minha vida. Posso escrever sem intenção? Não pense que o que sou está nessas linhas. Posso te dizer o que passou? Não julgue minha vida pela minha loucura. Posso então fingir que isso é divã? Devo me explicar sempre, mas sempre vai ficar pra amanhã.

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Cigana

15 . Novembro . 2009 · 3 Comentários

Era noite quente em pleno inverno quando tentou, em vão, trocar os personagens da história que, sem saber, já havia me contado. Sim, já sabia de todo seu sentimento, de toda impossibilidade e sua dor, de tudo que não foi e das ruas da cidade. Enquanto trocávamos experiências e palavras carinhosas como só dois desconhecidos o podem fazer, dizia-me que o branco era preto, o moreno era loiro, a noite era dia e a escuridão era luz.

Omitiu o amor, pois era inconcebível transformá-lo em ódio. Gostaria de ter ouvido de sua boca distante a verdade, mas só soube que aquilo tudo que pensei ser realidade era mera ilusão. Enquanto o trem partia fiquei só, no vagão, a pensar que cavidade é escuridão.

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O close do fim do filme

11 . Novembro . 2009 · 1 Comentário

Tudo nele era antigo, apesar de seus vinte e sete anos. Estava sentado na moto em frente a cantina onde trabalhava. Fazia viagens entregando lasanhas vegetarianas com molho branco que vinha em um recipiente separado, bem fechado para não respingar no baú da moto. Comprava marlboros para o chef e o cumim na loja de conveniência do posto da esquina, onde tinha um amigo frentista que surrupiava latinhas de cerveja quente – que ele bebia entre uma viagem e outra.

Usava calça de moletom azul anil velha e levemente suja, uma blusa verde-vômito ou sopa-de-verduras. No braço esquerdo uma tatuagem grande, um pouco escorrida, desbotada. O livro vermelho de capa dura e bordas puídas que ele segurava com uma mão não tinha título. Estava quase no meio do que pode ser considerado um livro grosso.

Lia com os lábios palavra por palavra quase que soletrando a história. Os olhos seguiam o som que não saía da boca, mas que narrava o livro todo num tom tão doce e suave que o barulho da avenida movimentada se resumia a nada, era sinopse daquela tarde de garupa.

 

(vinte e quatro de janeiro de dois mil e nove)

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É só você.

23 . Outubro . 2009 · 5 Comentários

Tantos dias me transformando e só tu reparasse na minha cor. Tom esse que não é verde, nem azul, tampouco vermelho – pra que dizer, quando nós dois já sabemos? Percepção não chega perto dos demais. Teus olhos parecem duas abelhas, mas insistes em fechá-los pra ver o mundo de outra maneira. É diferente, eu também, eu também sei. Convivemos com essa estranheza desde o primeiro dia de nossas vidas separadas e de nossa vida junto. Ao teu lado me transformo e tudo que sempre soube de mim fica guardado por trás de alguns dentinhos que reverberam ar e som e canto – enquanto tu me encantas.

 

 

sonhando acordada : lembrava do que então seria : estar com você por um dia ; ou pra sempre. – BG/MS

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Das Aulas

20 . Outubro . 2009 · 4 Comentários

Eu não chorei, nenhuma lágrima foi derramada. De todo sofrimento e toda alegria só por um momento liberei gota que fosse. Naquele dia daquela música que meu rei tocou, que era pra você, por você – era ser completo, seu completo – eu tive certeza que seus acordes embalariam minha vida. Mas não me ouviu de tão surdo que é. De tão cego, Amor.

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