Quantas letras existem? Quantas palavras? E bocas, sons e ouvidos? Não interessa, não faz a menor diferença quando o mais importante muitas vezes nem é dito. Dói demais saber que não sei, dói também ter medo de falar. Não quero me calar, recuso o silêncio. Talvez converse mais pra dentro e crie mais personagens em mim para evit.
Devo me explicar, sempre. Sinto que as palavras saem de mim e tomam corpo, enquanto o desejo passa pelas cordas vocais e. Fim de frase que não posso finalizar; luto muito, quero assim, mas me divirto tanto nesse meio, em meio a tantas idéias e diálogos tão lindos e sem sentido e é tanta beleza que eu sento à mesa na inocente tentativa de anotar cada átomo em desenhos em bastão.
Impossível. Uso todos os recursos que tenho à mão, mas como transpor a vida – aqui não cabe ponto de interrogação, penso até numa reticência, mas termino por escolher o ponto final. Não me entendem ou não querem entender. Penso mesmo que não há compatibilidade. Por que não acho pessoa que sabe exatamente o que penso? Onde estão aqueles que entenderão o que digo sem me dizer louca? Minhas idéias não são tão absurdas assim, meu cérebro não pode trabalhar de modo tão diferente do teu. Viajo por neurônios e cromossomos e certos domos de igrejas e vez por outra encontro gajo que não fala português e parece viver dentro de mim.
Devo me explicar, sempre. São inúmeros mal-entendidos, infindáveis situações peça-de-quebra-cabeça-que-não-encaixa. Peço ajuda? Não acredito. No fundo pouco me importa se alguém consegue algum dia chegar à raiz de tal árvore. Caso chegue, que corte um teco, tire pedaço. Que leve pra casa um daqueles negócios que as pessoas costumam chamar de lembrança, quando vão a algum lugar bonito e diferente. Pega, leva é seu. Seja minha abelha. Amarela e preta, quase vermelha, quase laranja.
Estou tão cansada e nada mais faz sentido. Meu olhar paira no meio, esse meio insuportável, meio dos exaustos. Tento entender o mundo, as palavras, meu amigo gajo que nem é mais vivo, as palavras, minha amiga de longe, as palavras, cada vez mais longe, as palavras, cada vez mais água entre nós, as palavras.
Devo me explicar, sempre. Não tente achar sentido em minha vida. Posso escrever sem intenção? Não pense que o que sou está nessas linhas. Posso te dizer o que passou? Não julgue minha vida pela minha loucura. Posso então fingir que isso é divã? Devo me explicar sempre, mas sempre vai ficar pra amanhã.